ARQUIVO X – EU NÃO CONSIGO
ACREDITAR MAIS!
Estamos em uma época de vivenciarmos nostalgicamente retornos televisivos.
Embora questões meramente mercadológicas estejam em primeiríssimo plano, essas
considerações a respeito de ressuscitar seriados encerrados se baseiam
sobretudo na ansiedade dos fãs que, por associação, estariam dispostos a tudo
para terem um pouco mais de tempo junto dos personagens que amaram tanto.
Inserir no mercado atual um pouco do que ficara no passado somente é possível
porque o sentimento de apego de um espectador ao que a televisão produz ficou
ainda maior conforme o respeito alcançado pelas séries foi aumentando e se
tornando essencial para a indústria.
Arquivo X tem uma das bases de fãs mais poderosas do mercado. Desde o último
episódio (que agora não é mais o último), lá no início dos anos 2000, a Fox
mantém em aberto a possibilidade de retorno através do cinema e da TV. A
incursão cinematográfica, entretanto, não foi bem sucedida e sepultou as
chances de um terceiro filme após o fiasco de 2008. Ainda assim, sempre
falou-se em uma nova tentativa de ressuscitar a trama num formato televisivo.
Nem um longa e nem uma temporada inteira, Arquivo X retornou para o que a Fox
chamava de “evento” e tinha como missão satisfazer os fãs antigos enquanto
angariava novos.
Mulder (David Duchovny) e Scully (Gillian Anderson) foram anunciados para
novas aventuras em 2016 e houve uma expectativa imensa acerca do que o criador
Chris Carter estava preparando, sobretudo quando também foi anunciado que
seriam apenas seis episódios. Os que acompanharam a série sabiam que havia
algumas pontas soltas a serem exploradas e que seria a primeira vez desde 2002
que o seriado voltaria a falar de mitologia. Seria a grande oportunidade de
corrigir os enganos dos dois últimos anos e de mostrar como os agentes estariam
lidando com o mundo contemporâneo. Uma das grandes razões para trazer de volta
a série que não terminou bem é dar a ela a chance de um final recomposto. Muito
poucos têm a chance e parece absurdo que se possa perdê-la. Bem, a meu ver,
Arquivo X perdeu.
Essa curta décima temporada se organizou da seguinte forma: dois episódios
mitológicos e quatro do estilo “monstro da semana”. O primeiro e o último
tratariam da trama central do seriado, que se apoiava em conspiração alienígena
e no paradeiro do filho perdido dos dois protagonistas. Esses dois episódios
foram denominados de “My Struggle”, correspondendo cada um à luta interna dos
agentes. A estreia focou-se nas lutas pessoais de Mulder e no seu eterno
conflito entre acreditar e questionar as evidências de vida alienígena, algo
que já vimos acontecer antes, mas que ganhou uma perspectiva interessante e
promissora quando esse décimo ano iniciou.
Para compreendermos melhor toda essa dinâmica, precisamos retornar ao quinto
ano da série, que fez Mulder duvidar de que os alienígenas realmente
existissem. Através de uma boa argumentação, um funcionário do Pentágono
revelou para o agente que o governo americano aproveitou a paranoia alienígena
de Roswell e lançou uma campanha midiática em torno da existência dos
extraterrestres para desviar a atenção da população de coisas mais importantes.
O instrumento de manipulação foi ficando refinado à medida que mais mentiras
eram produzidas para sustentar a maior delas. A argumentação deixava claro que
alienígenas nunca teriam existido e foi apenas uma ficção encomendada.
Posteriormente, Mulder recuperou sua fé, mas agora vimos uma premissa
parecida ser oferecida logo na estreia do novo ano. Comprometido com a ideia de
modernizar a dramaturgia, Carter mirou nas questões de dominação global e
terrorismo, insinuando que a maior conspiração de todas havia passado incólume
pelo radar. Segundo o primeiro episódio, os alienígenas sempre teriam existido,
mas nunca tiveram interesse em colonização. Ao caírem em Roswell, revelaram
tecnologia e material orgânico para que o próprio homem conduzisse os planos de
dominação. Assim, os alienígenas seriam apenas um bode expiatório para que o
controle fosse exercido pelos próprios habitantes do planeta terra. Seria o
terráqueo o verdadeiro colonizador.
A interessante premissa, contudo, precisou ser esquecida por algumas
semanas, quando os episódios de “monstro da semana” vieram para dar ao
espectador a experiência de reviver uma temporada de Arquivo X no seu sistema
clássico. Chris Carter não conseguiu trazer Frank Spotnitz de volta, (grande
roteirista de episódios clássicos), mas ainda assim com dois outros
roteiristas, conseguiu garantir que o fã mais exigente fosse recompensado em
sua espera. Quatro capítulos sem conexão com a trama central foram escritos e
produzidos seguindo uma ordem pré-estabelecida; e essa ordem foi trocada pouco
antes da temporada começar.
Por todas essas quatro semanas, vimos que a série encontrava dificuldades
para contar novas histórias sem livrar-se dos vícios do passado. Em alguma
instância, todos esses quatro momentos foram apoiados em detalhes que já tinham
passado pela vida útil da série. Esse era o sintoma de um problema maior, mas
que só ficou evidente no episódio final, quando as dificuldades de Carter no
exercício de sustentar a importância de seu produto acabaram falhando por
arrogância e falta de visão.
Ao chegarmos no final, a expectativa era de ver impressas nesse episódio
mitológico as premissas que abriram os trabalhos da temporada. O primeiro
roteiro do ano oferecera várias boas condições para que uma investida dos
protagonistas dentro da conspiração governamental tivesse uma natureza nunca
explorada. É claro que ter evidências de tecnologia alienígena sendo usada para
perpetuar um vilanismo extraterreno que mascarasse as ações colonizadoras
iniciadas na própria Terra, deixou o caminho aberto para investimentos novos.
Porém, o segundo “My Struggle” foi tomado de verborragia e de incoerências que
feriram mais um pouco a trajetória da série. Carter resolveu ir para o mesmo
lugar de onde sempre volta. Seu fetiche pelo argumento do DNA, da vacina, do
vírus, do híbrido, assola os Arquivos X há muito tempo. Foi com muito pesar que
vimos se desenrolar uma trama rebuscada envolvendo um vírus que atacou a
humanidade e uma busca por uma cura que se resolve em uma tarde, sem problemas.
Foi com desconfiança que vimos o roteiro privilegiar as mesmas justificativas e
saídas fáceis que já tinham condenado a série antes e que estavam condenando
agora.
Quase não tivemos Skinner (Mitch Pillegi) e a volta do Canceroso (William B.
Davis) está entre as decisões mais equivocadas desse retorno. Nem mesmo uma
ponte entre a primeira mitologia (situada entre a primeira e a sexta
temporadas) e o atual estado de poder do dito, nós vimos. É claro que se os
alienígenas nunca estiveram interessados em colonizar, precisaria haver uma
ligação entre os atuais eventos e os eventos passados. Algo que justificasse a
posição do Canceroso nos planos. Talvez, inclusive, a presença dele na série só
não seja tão grave quanto o retorno de Monica Reyes (Annabeth Gish), que foi
inexplicavelmente justificado com um ato de covardia que não tem a menor
coerência com o que sabemos dela.
O resultado final foi ambíguo. O envolvimento pessoal de alguns com a série
acaba tornando esse retorno válido de muitas formas. Ainda tivemos boas cenas,
bons momentos, tivemos Gillian Anderson provando como é boa atriz e vimos com
orgulho alguns sinais de amadurecimento escondidos nos cantos. Visto que uma
nova temporada seja muito possível por conta da audiência, o imenso gancho
deixado em aberto no final ainda pode ser resolvido. O grande problema,
contudo, é que Arquivo X não parece confortável com seu compromisso de acabar,
e agoniza retornos que lhe garantam uma despedida digna. Infelizmente, não foi
desta vez. Se a verdade continua lá fora, Chris Carter está procurando nos
lugares errados.